A CAVERNA


Ficamos sabendo, Bernardo e eu, que havia um buraco na serra do Tucum e, desde então, ficamos curiosos para saber o que havia lá. Nosso pai alertou, desdizendo, mas nós sé pensávamos entusiasmado demais.


Os mais velhos contavam muitas histórias que a gruta era encantada, porém ninguém sabia ao certo o havia lá, no fundo o que existia mesmo era muita curiosidade.


Meu avô nos entusiasmou quanto à subida, mas nossa avó não gostou nada de nossa aventura, ela havia sonhado coisas não muito agradáveis e, portanto, estava com mau pressentimento.


Mesmo assim, em um sábado de sol resolvemos seguir a trilha. Meu irmão apanhou um bornal, colocou alguns pertences, como lanterna, água e alguns biscoitos, e partimos.


A estrada era longa e seguíamos a pé no meio do agreste de folhas avermelhadas. À tarde vinha chegando e o sol pairava sobre o barro vermelho do serrado.


Íamos falando sobre a vida, conversando coisas sérias, sonhos e algumas bobagens, no entanto isso não nos atrapalhava olhar as muitas belezas que haviam pelo caminho.


Bernardo era engraçado, contava histórias. Pensávamos que ainda no final daquela tarde estaríamos em casa para contar a todos as maravilhas da serra.


Quando chegamos ao pé da serra já estava quase escurecendo. Eu falei para Bernardo que deveríamos retornar e voltar outro dia, mas ele era determinado demais para voltar e ainda me chamou de medroso.


Procuramos umas trilhas velhas em desuso e buscamos subir por elas. As pedras soltas e escorregadias exigiam de nós bastante cuidado, qualquer vacilo seria morte na certa.


Já estava escuro quando chegamos ao topo da serra e avistamos a abertura na rocha. Bernardo apanhou a lanterna e caminhou a minha frente. De repente, avistamos uma claridade e ele correu em direção à luz no interior da gruta, gritando:

— Corre, João! O portal está se fechando! Corre!


Eu corri um pouco atrás dele, porém meus pés escorregaram nas rochas e eu caí enquanto avistava o seu corpo atravessar a passagem de luz. Ele olhou para mim estendendo a mão. Alguma coisa puxava seu corpo para o além. Eu corri para segurar sua mão enquanto ele me chamava, mas não houve tempo, a luz foi se exaurindo rapidamente, só deu tempo dele atirar a lanterna em minha direção… e a luz se apagou.


Eu fiquei perplexo, não estava acreditando que aquilo realmente havia acontecido. As minhas mãos estavam trêmulas, eu podia notar enquanto procurava no escuro, rastejando entre as pedras o foco de luz que ele havia me dado.


Quando encontrei a lanterna e foquei, não havia mais nada lá, apenas o vazio. Nunca me perdoarei por ter tido medo e hesitado.


Segui o caminho de volta rapidamente. As pedras deslizaram e eu acabei rolando serra a baixo e desmaiei. Acordei algum tempo depois e foi isso que me contaram.


Eu contei para as pessoas, que obviamente não acreditaram. Diziam que meu irmão havia ido embora e que eu estava mentindo para encobrir. Outros diziam que eu e meu irmão havíamos brigado e que eu tinha matado ele. Mas eu sabia a verdade e só isso importava.


Quis saber da lanterna. Meu tio José havia levado para sua casa. Fui atrás a todo custo. Eu tinha a impressão que somente ela poderia me iluminar para eu encontrar novamente o meu irmão.


Quando tio José me devolveu, eu apertei-a no peito, ele olhou cismado.


Daquele momento em diante, de posse da lanterna eu poderia retornar a gruta, procurar aquela luz e tentar ultrapassar, mas no fundo, alguma coisa dentro de mim dizia que ainda não era a hora, há dias que ouvia o som da sua voz me chamando lá em cima da serra, quando o vento trazia nas palhas do agreste o seu sussurro:

— Joãoooooo!


Subi parte da serra de olhos fechados, com medo de atravessar aquele portal e saber o que havia lá. Se ia encontrá-lo, abraçá-lo. Ia-se ouvir o som da sua voz, seu sorriso malicioso e cheio de coragem debochada. No entanto, eu retornava cheio de incertezas.


Com o passar do dos anos e as saudade de Bernardo minha avó resolveu seguir a estrada da serra. Às escondidas ela arrumou suas coisas e partiu e de lá nunca mais voltou.


Com o tempo, nosso avô também começou a se entristecer. Chamei-o para conversar, o fiz jurar que não iria para a serra. No entanto, um dia ele também para lá se foi e por lá ficou.


Depois foi também minha mãe, em seguida meu pai, meu irmão mais velho, enfim, passar por aquele portal misterioso, com o tempo, virou uma tradição.


Todos esses acontecimentos foram fazendo as pessoas me excluírem, ou eu mesmo, não sei ao certo, só sei dizer que fui ficando afastado de tudo e de todos.


Quando, muito raramente havia algum almoço ou aniversário de algum familiar em que eu estava presente, percebia os olhares, as insinuações, o apontar o dedo de longe, e tudo isso me fazia ficar longe.


Os anos se passaram e eu envelheci solitário. A amargura tomou conta de mim e eu comecei a pensar seriamente que também deveria subir a serra e atravessar o portal.


Em minha cabeça havia várias perguntas: será que o portal é uma entrada para o paraíso? Será que chegando lá, vou encontrar os meus familiares, meu irmão Bernardo?


Com esses pensamentos, fui me decidindo e me preparando para seguir viagem.


Certa manhã apanhei o bornal coloquei dentro um pouco de farinha, uma rapadura, algumas bananas cozidas, uma cabaça com água, apanhei uma velha espingarda, um facão, um isqueiro e minha velha lanterna, então segui.


O caminho ainda era o mesmo, mas parecia que tornara-se mais longo, mas não, era apenas o meu cansaço de existir. As dores no corpo de cada cicatriz dos muitos tombos e arranhões.


Meu coração era cético e ansioso, mas de alguma forma eu queria acreditar que poderia encontrar algum descanso em uma sombra do caminho, afinal, sempre me fizeram crer que quando se caminho nunca existe um final de trilha, tudo é meio e, qualquer sobra apetece o coração cansado de viagem, sejam alegres ou vãs.


O sol estava muito quente, porém os ipês estavam floridos, pelo menos enchia meus olhos de encanto e beleza, aquela beleza que só existe no serrado e que enche o coração do solitário de magia, de saudade, de precipitação.

Quando cheguei ao pé da serra, como da primeira vez, a tarde já estava bem adiantada, por isso revolvi descansar ali mesmo. Fiz uma pequena cabana de palhas de piaçava no tronco de um pé de pequi.


À noite, acendi uma fogueira, comi uns punhados de farinha com rapadura e um pouco das bananas, e olhei as estrelas até a lua se esconder por trás da serra.


Dormi abraçado com minha velha espingarda. De madrugada, acordei e continuei a subida, vagaroso, porém determinado como nunca estivera na vida.


Agora tudo era muito difícil, escorregadio. Meus pés vacilavam e por pouco eu não rolava ladeira abaixo, todavia eu precisava caminhar e provar para mim mesmo, a última vez na vida, que eu era capaz de seguir aquele caminho.


Depois de muito tempo de existência, a gente não sabe se é determinação ou se é amargura mesmo, a gente se torna teimoso que nem percebe.


O sol estava muito quente, no entanto o céu estava cheio de nuvens carregadas, pelo imenso calor dava para perceber que logo mais iria se desmanchar em chuva.


Por volta de meio dia cheguei ao topo da serra. Quando entrei na gruta, percebi o clarão de luz, no entanto eu estava muito cansado, portanto, resolvi descansar alguns minutos, comer o resto das bananas e um pouco mais de farinha. Assim o fiz, e depois, apanhei a cabaça e tomei uns goles d’água, depois, apaguei completamente e só despertei porque trovejava.


O vento zunia no interior da caverna, pelo visto era uma grande tempestade. Ao olhar para o portal, percebi que o foco de luz desaparecia, achei estranho e, ao me aproximar vi que existia uma brecha na rocha, por onde antes passava os raios de luz do sol, que agora, ao invés de luz, passava um lençol de água da chuva.


Aquela água trazia toda a sujeira que tinha nas rochas. O real é sempre um pouco mais decepcionante do que o sonho, por isso, é preferível sonhar que manter-se acordado.


Acendi a lanterna, aquela mesma que fora, um dia, do irmão Bernardo, e ultrapassei. Havia um buraco. Caminhei por ele. Aos poucos meu senso de desconfiança foi acionado, afinal, era um lugar muito esquisito e, ainda por cima, tinha um cheiro horrível.


Lá na frente à gruta fazia uma curva e havia uma bifurcação. Tive que escolher qual rumo seguir. Terminei escolhendo um que parecia mais frequentado, se é que se pode dizer assim.


No final encontrei o penhasco de mais de duzentos metros de altura. Lá embaixo muitas pedras e alguns arbustos, mas agora com a chuva forte não se podia ver muita coisa.


Gritei um grito mirrado e ouvi minha própria voz no abismo. Senti-me sozinho como nunca havia me sentido antes. Tinha a impressão que ouviria a voz de Deus, mas só ouvi a minha própria mortalha ressoar.


Retornei e segui o outro caminho e, no final dele, enfim, encontrei, pasmo, um monte de ossos. Meu coração encheu de pavor, meu Deus, eram os meus familiares: o irmão Bernardo, vovô, vovó...


Eu caí no chão, minhas forças tinham se acabado. Eu não podia pensar em mais nada, senão morrer ali mesmo, se foi o restinho de sentido de existência que ainda restava.


Quando de repente, minhas pernas foram laçadas por um bicho e me debati em vão. Minhas pernas eram comprimidas. Minha espingarda, nesse instante, estava jogada longe, eu tinha apenas o facão, mas o corpo se enroscava de tal modo que eu não podia puxá-lo.


Ela me enrolou em seu meio, pude vê sua cabeça se levantar para o alto, era uma grande cobra. Nunca tinha visto algo tão terrível e tão absurdo de enormidade.


A medida que seu corpo ia se contorcendo e quase me partindo ao meio pude, esticar um braço, algo quase impossível, mas fiz das tripas o coração e alcancei a espingarda; atirei só com uma mão mesmo, a bala pegou bem nas fuças. Ela me jogou no chão, no espanto, mas continuou laçando um dos meus pés e seguiu para um buraco na rocha, escuro e fedido.


Grudei na entrada, escorregando as mãos nas rochas, sem espingarda para terminar de matá-la. As forças eram uma miséria, aquele era o meu fim, mas lembrei novamente do facão e o arranque da bainha, vendo-a levando a metade no meu corpo no buraco, acertei o facão, em vão, era como um novelo impenetrável. No desespero, cortei a minha própria perna.


Ela se foi, levou a parte que eu havia cortado. O sangue jorrou como um turbilhão enquanto eu me arrastava gruta afora, enlouquecido de dor, medo, pavor, tudo enfim. A gente sempre perde uma parte da gente quando descobre a verdade. É dolorido demais.


Quando cheguei de volta na encruzilhada, fiquei pensando, um pensamento alarmado pela dor, nessas horas a gente não pensa direito, se deveria voltar ou morrer ali mesmo. Eu já era velho mesmo, não me restava mais muita coisa. Agora, havia aquela gente, pensei se não era melhor morrer acreditando, tendo esperanças de algo melhor, as migalhas da vida são muito escassas.


Assim eu voltei, não sei se por covardia ou por heroísmo. Arrastando-me gruta abaixo, desmaiei. Alguém me encontrou, cuidou de mim, me levou para casa.


Quando melhorei, chamei todo mundo e contei tudo que tinha visto. Tudo em vão, não acreditaram, me disseram que eu era um covarde e, por pura maldade, resolveram me levar serra acima. Covardes, me obrigaram, a força das armas, a correr, com o resto de mim, o pouco que me sobrava, e ultrapassar o portal, e assim dei de cara com o abismo.


Ouvi meu nome Joãooooo! E meu corpo atendeu aquele último chamado.

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