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As Irmãs da Misericórdia

Atualizado: Mar 8


"...e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes."

-- Marquês de Sade

Beije-me, doce Maria, minha prostituta Que nas ruas da cidade loucamente luta Nessas noites psicodélicas, com sua dança, Seu corpo vendido, atrás de alguma esperança.

Oferecendo o corpo como sacrifício; Couro preto, sintético, pele macia Cheirando a sexo, esse perfume que alivia Os que procuram redenção no seu ofício.

Sua irmã, devota e amarga, chama-se Mortícia, Uma freira que morde a língua com malícia Para não se render à luxúria e ao pecado, Quando peço perdão por tê-la desejado... Mortícia, abençoe minha atroz alma sombria! Sinto o toque de sua mão na minha cabeça, Espero o fogo sagrado que me enobreça, Mas por seu Deus, a mão de Mortícia é tão fria!

Maria... mulher moderna, vadia infernal, Vive com ratos no lixo e prova do mal Que esses ratos roem por ambição desmedida, Com luxo e poder na pele – Maria ferida. Clubes noturnos, perdição – Maria drogada. Suas roupas pouco dizem quando ela está nua, Sua dança nada embala nas camas da rua. Resta a mensagem na pele, cicatrizada!

Mortícia... mulher reservada, santa e casta. Para o caminho do sagrado ela me arrasta, E triste, me encontro em sua catedral imensa De onde vertem lustrais e irradiação intensa. E entro, como um velho templário medieval. Desejo ardentemente seu vinho sagrado — Sangue! Poder em que mantenho dominado Nosso cortejo de almas fúnebres do mal.

Destroços ao meu redor, lixo, fim do mundo. Nessa desolação meu desejo profundo Será me perder na canção dos enforcados Para aceitar sua mão que acolhe meus pecados. E com meus negros olhos, dizer: ― Nunca mais... Aos pés da Santa Maria, minha salvação, Reunindo sua luxúria e minha perdição, Fazemos um pacto em nome de Satanás!

Mas agonizantes mortes ao meu redor Lançam ecos, numa dor cada vez maior, De suicidas, assassinos e pecadores Que buscam salvação na cruz dos redentores. Mas o crucifixo de Mortícia é infernal! Queima ao menor toque na pele dos culpados, E a dor é tanta, que somos arremessados Ao purgatório da libertação final.

Porém, se das irmãs temos antagonismos, Nas suas mortes seus destinos estão cruzados. Porque ao redor de caveiras e simbolismos, Há o mesmo pó sobre seus corpos enterrados...

Sobre o túmulo de Maria brinda um casal Com taças de vinho, nus, amor sepulcral. A profanação do sagrado tumular Pela volúpia da luxúria sob o luar E morcegos pelas ventanias demoníacas! Criaturas das trevas que assombram cemitérios, Seres contentes pela atração de mistérios Que aceleram suas negras batidas cardíacas.

Sobre o túmulo de Mortícia um sonhador Admira os anjos de pedra imersos na dor, Até, no espanto, perder todos os sentidos Quando a brisa noturna leva aos seus ouvidos O pio da coruja -- testemunha da morte. Um ser das sombras, que assombra locais ocultos Onde seus males perambulam como vultos. Cada qual, no pulso, com seu profundo corte.

Ressuscitem, mortas irmãs da noite eterna! Libertem-me dos gritos loucos da discórdia. Porque vagando, meu espírito se alterna Por entre a cruz e o fogo, sem misericórdia.

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