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A Literatura Maldita

Atualizado: Jul 1


Poète maudit – Pintura de Santiago Caruso


Poeta maldito (em francês: poète maudit) é um termo utilizado para referir os poetas que mantêm um estilo de vida que pretende demarcar-se do resto da sociedade, considerada como meio alienante e que aprisiona os indivíduos nas suas normas e regras, excluindo-se mesmo dela ao adotar hábitos considerados autodestrutivos. Sob este conceito está o mito de que o gênio criador tem terreno especialmente fértil entre indivíduos mergulhados num ambiente de insanidade, crime, violência, miséria e melancolia, frequentemente resultando no suicídio ou outro gênero de morte prematura. A rejeição de regras manifesta-se também, geralmente, com a recusa em pertencer a qualquer ideologia instituída. A desobediência, enquanto conceito moral exemplificado no mito de Antígona é uma das características dos poetas malditos.


“Maldito leito de minha mãe,

unida a seu próprio filho,

meu pai,

nascido dessa mesma desdita mãe,

dos quais eu, infausta sou filha.

(…)

Sem pranto, sem amigos, sem núpcias,

sou, desventurada, arrastada

por este franqueado caminho.

O brilho desta flama sagrada

já não me é dado, infeliz, contemplar.

Minha morte não chorada

amigo nenhum lamentará.”

(SÓFOCLES, p. 62–63)


Os versos declamados pela personagem Antígona ao Corifeu após ser condenada à morte pelo rei Creonte como consequência do ato de sepultar o corpo do irmão, o traidor Polinices, demonstram com clareza o lugar que uma mulher como ela (não) ocupava enquanto pessoa, e que a personagem tinha consciência desse fato. Sendo fruto de uma relação incestuosa, filha de Édipo e Jocasta, sua mãe (e aqui a ambiguidade se mostra pertinente), Antígona é uma “mulher falha” perante a sociedade em que vive e em seus próprios olhos: incerta do seu papel de filha, irmã e neta; incapaz de exercer a parte de esposa e “manchada” pelo destino de Édipo (pai, irmão) e Jocasta (mãe, avó), Antígona observa e percebe, na hora de sua morte, a solidão do acaso e aquela imposta por ela própria.


A atitude da personagem frente às consequências do sepultamento proibido de Polinices demonstra despreocupação quase serena: Antígona tem ciência das próprias ações e sabe exatamente o que acontecerá quando (e não “se”) seu crime for descoberto, porque se entende como “mulher falha”, sem futuro e sem alguém. “Minha morte não chorada / amigo nenhum lamentará”, ela declama ao Corifeu; enquanto “mulher falha”, em anacronismo, Antígona pode ser lida como uma alegoria para a solidão e, mais especificamente, a exclusão da mulher deficiente e neurodivergente.


Ao se descrever “desventurada, arrastada”, a personagem parece compreender a falta de espaço para uma mulher como ela — manchada, indigna, fruto de incesto — na sociedade grega: se acabasse por se casar, seus filhos seriam igualmente “desventurados” por carregarem sua herança genética. Como sintetizado por Addlakha, Price e Heidari (2017, p. 4), “para mulheres, a deficiência geralmente significa a exclusão de uma vida de feminilidade, parcerias, sexualidade ativa e negação de oportunidades de maternidade”, a interpretação de Antígona vai de encontro às mulheres deficientes por estas não serem vistas além de suas condições, sendo, também, muitas vezes, socialmente condenadas à invisibilidade e apagamento, tal como a personagem.


Antígona é heroína, corajosa, leal, certa de suas escolhas e convicções e, numa interpretação além, negada de sua sexualidade e da oportunidade de ser mãe por ser incapaz de cumprir as obrigações impostas às mulheres daquele tempo. Nesse sentido, de certa maneira, sua morte é libertação: através dela, Antígona parece se livrar do peso da própria existência. Ao contrário de mulheres deficientes que, hoje, encontram apoio nos movimentos feministas inclusivos, Antígona não via escapatória na sua condição.


Ainda assim, sua tragédia evidencia que, mesmo sozinhas, renegadas, substituídas, “sem pranto, sem amigos, sem núpcias”, mulheres deixam marcas com suas atitudes. Sua importância literária enquanto personagem feminina é exatamente pelos destaques dados às suas atitudes. O lugar de Antígona no mundo, ao fim da vida, foi de honrar suas convicções e sua consciência, provando, enfim, como tantas mulheres deslocadas, que a “mulher falha” se traduz, na verdade, em “mulher distinta”.



O termo POESIA MALDITA

Os escritores do Romantismo utilizaram o termo, aplicando-o a François Villon (1431-c. 1474), considerado, por isso, como sendo o primeiro poeta maldito da história da literatura. O autor da expressão foi Alfred de Vigny, que a utilizou em 1832 na sua peça dramática Stello, onde se refere aos poetas como “la race toujours maudite par les puissants de la terre” ("a raça para sempre maldita entre os poderosos da terra").


François Villon, pseudônimo de François de Montcorbier ou François des Loges foi um dos maiores poetas franceses da Idade Média. Ladrão, boêmio e ébrio, é considerado precursor dos poetas malditos do romantismo.


O termo popularizou-se a partir da sua utilização para referir-se a um grupo de poetas, emprestado de uma série de artigos dos anos de 1884-1888 de Paul Verlaine intitulado "Les poètes maudits" (Os poetas reprovados), no "Boletim Lutèce", no qual poetas como Tristan Corbière, Rimbaud e Mallarmé eram enfatizados.


Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Lautréamont são considerados exemplos típicos.


O termo é relevante para as vanguardas do século XX, não apenas porque alguns dos seus precursores foram qualificados como malditos, mas porque estas, com sua postura polemista, iconoclasta, tendiam a sofrer grande resistência nos meios culturais.


Em diversas ocasiões na história, normalmente por razões políticas, grupos de poetas precisaram se colocar à margem dos meios tradicionais de difusão de cultura, a fim de manterem viva a sua arte. Isto se deu no Brasil, com a chamada Poesia marginal, por exemplo.


De certa forma, o termo poderia ser aplicado e, de fato, é, a poetas independentes, com um estilo não aceito pela mídia, tal como o compositor e poeta brasileiro Jorge Mautner que, por suas referências literárias e seu trabalho majoritariamente musical, não ocupa um grande espaço nas preocupações, nem do meio literário, nem do meio musical.



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