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O Fantasma de Akin

Um conto de Indy Sales

Era meu segundo dia de trabalho naquela casa, e eu já não suportava mais. Estava exausta. O ano era 1966 e eu só tinha 14 anos. Jovem demais pra limpar sozinha uma casa de três andares. Eu não tinha tempo pra comer, e não me davam comida o bastante. Tudo o que eu tinha era um porão escuro e úmido pra dormir. Eu não queria trabalhar naquela casa. Não mesmo. Mas não tinha outra escolha, pois minha mãe havia morrido e meu pai me expulsou de casa após isso. Eu precisava sobreviver.


Após tomar um banho gelado, eu me deitei na cama dura e fechei os olhos. Sentia que não poderia passar mais um dia sequer olhando pra cara azeda da patroa e das suas filhas estúpidas que só sabiam dar ordens. Minha barriga roncava de fome, e não conseguia pegar no sono, apesar do cansaço.


Quando comecei a cochilar, ouvi um som que soou como um “pssssiu”. Abri os olhos, assustada. Tive medo que fosse o patrão. Percebi como ele olhava pra minha bunda enquanto eu esfregava o chão… Estremeci. Corri e acendi a luz, que não era capaz de iluminar direito aquele breu que envolvia o porão. Mas foi o bastante pra eu ver que havia uma criança agachada no canto do quarto, me olhando com curiosidade. Aproximei-me e vi um menininho preto, de olhos bem grandes. Meu coração acelerou. De onde saíra aquela criança?


— Oi… – Falei, trêmula – Quem é você?

— Sou Akin! Mas o patrão me chama de Francisco! Ele fala que nome de preto não pode aqui.


Aproximei-me mais e percebi que eu podia ver através do menino… Podia ver a parede atrás dele, através de seu corpinho raquítico, como se fosse um espírito. Tentei tocá-lo e não consegui, minhas mãos o atravessaram. Era um fantasma.


Naquele momento, não sei descrever o que senti… Não era medo. Era curiosidade e uma espécie de fascínio. Eu sempre duvidei que houvesse algo além da vida, embora sempre quisesse ver algo que me provasse o contrário. A mamãe dizia que podia falar com espíritos… Nunca acreditei nela. Agora eu tinha certeza que não estava louca. Estava vendo um fantasma… E não me metia medo. Era apenas uma criança.


— Akin… Como veio parar aqui?

— Eu moro aqui. – Disse, em tom de sussurro – Moro aqui com minha mamãe.

— Quem é sua mamãe?

— Ela trabalha nessa casa. Ela limpa, cozinha, capina e faz tudo mais…

— E onde ela está agora?

— Não sei… Ela saiu há muito tempo e não voltou ainda.

— Hum…

— E você fica sozinho aqui?

— Ela sempre diz pra eu ficar quietinho aqui e esperar por ela! Ela sempre traz um pedaço de pão pra mim! Mas escondido… – Disse em tom de segredo.

— E vocês moram no porão, como eu?

— Sim. A gente veio de muito longe. E o povo mau trouxe a gente pra Ouro Preto.


Conversei com Akin o bastante pra saber que ele era filho de uma escrava e tinha 4 anos apenas. Pelo visto, a mãe dele morreu e ele morreu de fome no porão, esperando por ela. Ele não sabia que estava morto… Ainda esperava por ela. Ele só confiou em aparecer pra mim, porque eu era preta igual ele, e usava tranças no cabelo, como a mãe dele.


Meu coração se partiu com a história do pequeno Akin. E achei injusto ele não saber a verdade. Por mais que soe maldoso, eu contei tudo pra ele. Contei que eles eram escravos, e que provavelmente a mamãe dele trabalhou até morrer. Contei que ele também já havia morrido, e que se passaram muitos e muitos anos. E que, pela fome e cansaço que eu sentia, ia acabar tendo o mesmo fim que eles.


Akin chorou muito e tentou me abraçar. E embora seus bracinhos estivessem ao meu redor, eu só sentia um sopro gelado envolver o meu corpo.


Após muito chorar, ele removeu um tijolo solto da parede, atrás do armário, e puxou de lá um saquinho cheio de ouro.

— De onde veio isso, Akin?? – Perguntei, perplexa

— Meu papai pegou esse ouro na mina onde trabalhava. Ele disse pra mamãe guardar isso, pra gente poder fugir daqui. E agora eu vou dar isso pra você…

— Akin… não posso aceitar isso! Vão dizer que eu roubei, vou parar na cadeia ou na rua!

— Pega esse ouro, irmã. É a sua liberdade. E pega essa faca também… – Disse, tirando uma faca enferrujada do mesmo lugar que tirou o ouro.

— Pra que essa faca?!

— Confia em mim… Vai precisar…


Naquela mesma noite, pouco antes do amanhecer, eu peguei meus trapos e fugi. Ao passar pela sala de estar, o patrão me viu, e tentou me segurar. Perguntou o que eu estava levando na bolsa, abrindo-a e vendo o ouro reluzir, começou a apertar meu pescoço. Implorei pra ele parar, ele disse que se eu me deitasse com ele, ele fingiria não ver minha fuga. Aceitei. Porém, antes que suas mãos imundas me tocassem, cravei a faca enferrujada em seu pescoço, fazendo seu sangue espirrar na parede.


Quando o sol nasceu, eu já estava longe dali. Estava livre.

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