Blog Soturno

O andarilho solitário

22/06/2019

Das sombrias recordações de um misantropo
 

 

 

Detesto tanto seguir como conduzir.

Obedecer? Não! E governar, nunca!

Aquele que não é terrível para si, não incute terror a ninguém,

E só aquele que inspira terror pode comandar os outros.

Já detesto guiar-me a mim próprio!

Gosto, como os animais das florestas e dos mares,

De me perder durante um bom tempo,

Acocorar-me, sonhando, em desertos encantadores,

De me chamar a mim mesmo, por fim, de longe,

E de me seduzir a mim mesmo.

 

Friedrich Nietzsche

 

 

 

 

Era uma região muito distante e desolada. Lá se encontrava uma desconhecida província que eu conheci ao acaso. Era uma época remota do século XIX, e eu era caixeiro-viajante quando a dita região me causou um fascínio particular. Ali mesmo eu adquiri o meu alojamento. Era o último andar de um pequeno prédio atarracado de três andares que estava abandonado há muitos anos. O cubículo era tão pequeno que mais parecia uma caverna do que um apartamento. Tinha apenas uma janela decrépita. As paredes eram de tijolos e encimadas por uma camada de argamassa completamente em ruínas. O tugúrio tinha também uma pequena sacada, meu lugar predileto do dia a dia.

 

Não muito longe do prédio, a floresta ostentava-se um aspecto aprazível e soturno. Minha mobília era tão insignificante que não é digno de menção, exceto um objeto que eu considerava uma preciosidade, uma antiguidade rara, que se tratava de uma poltrona bastante aconchegante, que eu adquiri por meio de um conhecido de outrora que era ocultista, e que também me presenteara um livro muito raro de ritos fúnebres de uma antiga seita pagã.

Desde a tenra infância tenho sido um eremita. Um solitário afastado do mundo visível. Minha verdadeira companhia era mesmo a solidão. Há décadas que eu não travava uma amizade. Tampouco sentia falta da camaradagem. Foi por tais circunstâncias, no que concerne à minha alma, que eu entusiasmei a procurar, com afinco obstinado, um alojamento nos confins do mundo para que eu pudesse gozar de meu espírito, e de minha incansável soledade.

 

Alguns conhecidos, que vez ou outra eu os via por aí, moldavam-me da seguinte maneira: um sujeito bem excêntrico e introspectivo, uma singularidade estranha e original. Certa vez, enquanto vagueava pelo campo, um camponês de cabelos brancos e barba longa, que andava cansado de sua farta sabedoria, revelou-me que a minha pessoa causava-lhe certo assombro. Fiquei admirado ao ouvir isso. De fato, sempre fui sombrio, retraído, mal-humorado, e arredio ao contato com as pessoas.

 

Foi durante o crepúsculo, um sábado de grande ociosidade, que resolvi fazer o meu primeiro passeio pela região. Até aquele momento, eu ouvira falar através de conhecidos, apenas. Que bela região! Um verdadeiro paraíso para a minha alma. Assim pude contemplar, com audácia e prazer indescritível, as paisagens verdejantes, os vales arborizados e singulares, que a princípio achei bastante melancólico. Mas logo me afeiçoei à sua beleza de tal maneira que seu fascínio sobrenatural enfeitiçou-me em demasia. Considerei tão deslumbrante quanto à sabedoria dos livros antigos, ou a sabedoria oculta do universo.

 

Quando regressei, extasiado, à minha morada, tive uma súbita visita que não me ocorria há anos. Havia uma figura postada bem defronte à porta. Fiquei imóvel, e, durante um instante, observei o estranho com cautela. Ele me olhava de maneira curiosa. Jamais eu o vira em lugar algum. Era muito esdrúxulo para mim. O homem era de estatura alta. Trajava uma sobrecasaca bem surrada, de abas longas, abotoada até a gola. A calça também era preta, e combinava com a sobrecasaca. Usava uma gravata branca de cambraia. E numa de suas mãos segurava um chapéu-coco preto. Tudo era elegante conforme a peculiaridade de seu aspecto. A sua compleição era rústica. Tinha a barba grisalha rente aos ombros, e um nariz afilado. Olhar amplo, penetrante e austero, que dispensava qualquer comparação. Cabelos castanho-escuros e despenteados.

Notei que o homem poderia ser algum mujique. Seu ar aterrorizou-me, mas qualquer coisa naquela época era preferível à solidão que eu tanto suportava e, assim sendo, eu acolhi sua inesperada presença como um alívio.

 

Aproximei-me para cumprimentá-lo. Logo fui correspondido por uma voz grave. Ficamos olhando um para o outro durante quase um minuto em silêncio. Por fim, convidei o desconhecido para visitar o meu apartamento. Depois, eu o convidei para se sentar. No mesmo instante ele sentou-se na poltrona. Eu logo me sentei na cadeira que ficava de frente à poltrona, e me pus a repará-lo, um tanto espantado. Fez-se um silêncio profundo. Causava-me grande incômodo. Ponderei um assunto excepcional para entabular. Mas eu estava desprovido de qualquer tipo de assunto. Uma situação demasiada constrangedora. Seu ar era sombrio e rigoroso. Que diabo esse homem veio fazer no meu apartamento? O que ele quer com minha pessoa? Qual é a finalidade de tua visita? Questões como estas não paravam de martelar o meu cérebro.

— O que tu desejas? — perguntei, enfim.

— Tu tens vodca? — questionou-me bruscamente, depois de ter olhado em torno de si, com curiosidade.

— Não tenho vodca. Pode ser rum?

Um aceno de cabeça foi a resposta.

 

O homem virou o copo de bebida de uma só vez. Depois, levantou-se de modo resoluto, e, sem nada dizer, dirigiu-se à escada. Levantei-me no mesmo instante para que eu observasse seu destino. O estranho sumiu tranquilamente entre a floresta.

 

Passados alguns dias, eu já me sentia muito à vontade naquela região. De fato, era um lugar onírico e que trazia paz ao espírito. Era com muita frequência que eu perambulava pelos bosques encantadores, pelos riachos refulgentes, pelos caminhos tortuosos, pelos rochedos, cumes, a desfrutar do esplendor flagrante, e dos recônditos impenetráveis daqueles belos lugares que ali jaziam.

 

Um dia, numa manhã fria no auge do inverno, quando eu me encontrava sentado, imóvel e reflexivo, no banco de madeira que havia em torno do prédio, de repente tive um sobressalto com a visita do desconhecido. O ar revigorava e o céu estava claro. O estranho estava bastante jovial e vivaz. Acenei para ele e abri um sorriso. A sua alegria surpreendeu-me. Logo o convidei para entrar, e o homem sentou-se na poltrona. E sentei-me na cadeira, uma de balanço que eu usava muito para ler durante a insônia. Ele apresentou-se com espontaneidade e começou a conversar cordialmente.

 

Chamava-se Bóris Górki. Quarenta e cinco anos de idade, um camponês russo, e trabalhava para um rico proprietário de terras. Ele também era dono de uma cabana que ficava a dois quilômetros de minha morada. O visitante relatou com vivacidade sobre a vida no campo, também sobre seus passeios habituais, e principalmente sobre aquela região. Mas o que eu ouvi sobre aquele lugar me deixou deveras espantado.

 

Contou-me que aquela região tivera um passado sombrio. Aconteceu no século XVI, quando uma pequena civilização antiga vivera por ali durante muito tempo, e que naquela época havia uma rede alternativa de satanismo. Aqueles estranhos praticavam rituais de forças sobrenaturais para objetivos maléficos, o que hoje são denominados de magia negra. Envolvia nos rituais um apanhado de insanidades: sangue humano, sêmen, terra de cemitério, e frequentemente sacrifícios de crianças e de pequenos animais. Com efeito, era costume ocorrer mortes inexplicáveis dos próprios adeptos. Mas não demorou muito tempo para que uma minuciosa investigação fosse feita, a fim de abolir essas insanidades. Alguns foram presos, outros desapareceram. E a região tornou-se sombria.

 

Mas meu espanto não parou por aí. Bóris revelou-me que no sul daquela região, não muito distante da minha solitária morada, existia um cemitério que estava abandonado há décadas. Com seus portões destroçados, e as paredes destruídas. Tudo se encontrava entre devastação e desolação. Enquanto ouvia tais relatos, fui invadido por uma sensação mórbida e indescritível. Não que eu fosse tão medroso, o fato é que eu estava vivendo bem naquela região desses sinistros acontecimentos. É bem verdade que o horror e a insanidade têm tido livre curso ao longo dos séculos. Mas ninguém que não fosse daquela região acreditaria nessas histórias macabras, extravagantes, e estranhas, sobre uma região tão bela, todavia, outrora amaldiçoada.

 

Devorado pela curiosidade, foi preciso eu indagar Bóris donde ele soube de tudo isso. Ele respondeu-me na mesma intensidade jovial em que relatara. Esses estranhos relatos estão registrados nos livros de história que se podem facilmente encontrar pelas bibliotecas. Ou nas enciclopédias muito procuradas por alunos ou curiosos. Bóris era mesmo um conhecedor de diversas culturas pelo mundo par excellence. Enquanto eu, desprovido de conhecimento, eu lia apenas poesia, literatura gótica, e, claro... o grande Edgar Allan Poe.

 

Por fim, Bóris deu os últimos goles na sua bebida, e, como alguém que encerra um comovente discurso eloquente, levantou-se decidido, despediu-se com cordialidade. Foi uma prosa extraordinária. O pouco de conhecimento que angariei naquele dia me proporcionou uma alegria rara. Havia muito tempo que eu não tivera uma conversa tão amistosa e inesquecível. E foi assim que travei uma preciosa amizade com Bóris Górki.

 

Numa noite tempestuosa, asperamente prodigiosa, e estranhamente singular, eu estava demasiado absorto na leitura. O livro que eu lia era O Elixir do Diabo. Um silêncio mortal reinava no meu aposento, enquanto lá fora a pesada chuva devastava a floresta. Eis que de súbito ouvi um chamado de Bóris. Pensei que fosse imaginação de minha cabeça. Fazia três meses que ele não me visitava. Fiquei de orelha em pé. E era de fato a voz dele. Fui ao seu encontro de imediato. O sujeito adentrou apressado, dirigiu-se ao cubículo, e, como de costume, sentou-se na poltrona. Sentei-me na cadeira, e me pus a observá-lo. Notei que ele estava semiembriagado. E isto não era tudo: seu rosto era de uma tristeza profunda, e os olhos brilhavam em lágrimas cristalinas. Senti que ele precisava de conforto para desafogar seu coração oprimido. Foi então que ele relatou-me sucintamente as razões de sua melancolia.

 

Completara um mês e duas semanas que o meu amigo conhecera a sua prometida num vilarejo distante que eu desconhecia. Sua grande aspiração era o casamento. Era um sonho que ele muito acalentara. Uma paixão impetuosa, cujos sentimentos eram dos mais ternos. A noiva era uma jovem italiana, muito graciosa, belos olhos claros, cabelos castanhos, contudo, seu rosto não era de grande beleza. Bóris sempre foi insensível à beleza formal, e o que realmente o encantava nas pessoas, era justamente o coração. Eu aprendi com Bóris que sempre devemos observar a pessoa pelo coração. É onde irradia sua alma e a riqueza. Era a pureza da alma, a humildade, o coração profundo, que muito lhe encantou na sua adorada Giulietta. E sendo assim os amantes rejubilavam de felicidade e ternura.

 

Contava uma semana que Bóris pedira a mão da noiva em casamento e, destarte, o dia marcado para o casamento finalmente se aproximava. Era para ser o dia mais feliz de suas vidas. Os convites tinham sido entregues, e amigos e familiares já aguardavam o dia de grande realização de um belíssimo sonho, e de um amor verdadeiro que somente quem o sente sabe o que isto significa. Todavia, que angústia terrível é a vida! Lamento muito, meu caro Bóris. A força sombria se introduziu no destino daqueles grandes sonhadores. Eis que repentinamente uma tremenda desgraça aniquilara o destino de sua noiva. Giulietta morrera em um acidente fatal. Inacreditável, mas infelizmente era verídico. Por respeito ao meu inestimável amigo, eu não quero me aprofundar nos detalhes dessa triste tragédia.

 

Bóris caiu numa negra melancolia. E ainda assim o seu coração resistiu até o fim. O funeral de Giulietta ocorrera pela manhã. Em um antigo cemitério situado não muito longe de minha morada. Não houve muita gente. Apenas os poucos amigos e a família da noiva compareceram a cerimônia fúnebre. Bóris, por sua vez, profundamente transtornado, depois do sepultamento foi-se para a taberna que ficava no vilarejo, justamente onde ele conhecera sua noiva. Lá o triste homem chorava quanto bebia. Nunca bebera tanto quanto naquele dia. E destarte a criatura passou o dia na taberna e, depois de muitas horas, dirigiu-se ao meu apartamento naquela noite chuvosa. E isto foi tudo.

 

Fiquei estupefato enquanto ouvia o seu relato. Um sentimento de tristeza apoderou-se de mim. A chuva caía no decorrer daquela madrugada, causando um agradável ruído e um cheiro vivificante das folhagens e da terra. Fiquei em silêncio por longo tempo e, vez ou outra, olhava para a criatura taciturna diante de mim. A figura mantinha-se imóvel, fitando o chão, os braços nos respectivos encostos da poltrona. Passados alguns minutos, a chuva tornou-se miúda. Não muito tempo depois parou definitivamente. Agora se podia ouvir até mesmo um alfinete cair ao chão. Reinava um profundo silêncio. Tornei a olhar para a figura que permanecia imóvel. A lamparina alumiava tristeza. Uma atmosfera lúgubre pairava no recinto.

 

Olhei novamente para Bóris e, no entanto, qual não foi a minha surpresa quando, subitamente, meu pesar se transformou em inexprimível terror. Bóris, que há tempos não se mexia na poltrona, enfim levou a mão direita na algibeira do velho cafetã, retirou um revólver e armou o gatilho — um medo profundo me assolou — encostou à sua têmpora direita e apertou o gatilho.

 

Fiquei petrificado perante o horror. Eu mal tive forças para mover-me. O sangue jorrou daquela cabeça esfolada, arrebentada, formando-se uma grande poça no chão, e o corpo, por sua vez, tombou-se no espaldar da poltrona. Olhei para a parede e o que observei aterrorizou-me intensamente. Ali havia horríveis máculas de sangue que se parecia uma sinistra pintura abstrata.

 

Não dormi naquela madrugada. Permaneci imóvel na cadeira. E assim o dia raiou. Era uma manhã estranha. Tudo me pareceu mórbido. Levantei-me da cadeira, aproximei-me ao cadáver. O sangue se encontrava coagulado e negro. O crânio esfacelara e alguns fragmentos espalharam-se pelo chão. Pus-me de imediato a esconder o cadáver. Vários planos ocorreram-me. Um mais louco do que o outro. Nunca imaginei que algum dia eu estaria passando pela mesma situação daquele narrador alcoólatra da narrativa O Gato Preto. Então tive uma ideia simples que considerei a melhor. Decidi sepultar o suicida em algum lugar bem distante de minha morada. A floresta se prestava bem a tal propósito.

 

Apanhei uma ferramenta e, antes de qualquer coisa, fui procurar por um lugar discreto, longe de qualquer suspeita ou descoberta. Finalmente encontrei. Depois de uma longa caminhada, detive-me numa área arborizada e soturna. E também ostentava melancolia, nada aprazível. Não tive dúvida que ali seria um lugar perfeito para um funeral clandestino. Comecei a cavar, e, vez ou outra, eu interrompia minha tarefa para um descanso rápido. Dava alguns goles no rum. Contemplava em torno. Foi então que eu percebi que aquele lugar apresentava um aspecto mais sinistro do que o usual que eu contemplara em todos aqueles bosques. O crepúsculo reinou. Foi o momento que terminei a escavação, e, por fim, depositei o fardo fúnebre.

 

Realizado o enterro, descansei por um instante. Começou uma ventania fria que chicoteava meus ouvidos, e as folhas secas esvoaçavam-se pelo chão. De repente um temor sombrio começou a me assolar, quando, constatei que eu nunca perambulara naquela região. Era literalmente desconhecida pela minha pessoa. O entardecer esgotava-se gradualmente. Por conseguinte, antes que a escuridão viesse à tona, bebi meu rum, e lancei-me precipitadamente ao trajeto marcado que eu viera. A ventania que era sutil agora começava a ficar densa e mais fria. Meus músculos tremiam, e logo acelerei meus passos. Porém, vez ou outra, eu detinha-me imóvel, quando o reverberar estridente de rachaduras das gigantescas árvores atravessavam meus ouvidos.

 

Pelo incrível que pareça, quanto mais eu me apressava, mais estranho o trajeto me parecia. Causava-me uma impressão que ele era mais longo do que quando eu viera. Ao menos, pela minha sensação de aflição, ele me dava essa sinistra impressão. Alguns instantes depois, tudo se desabou à minha frente. Ai de mim! Estremeci e logo me detive imóvel. Eu já não via mais nada. Eu estava na plena escuridão. Para a fragilidade do meu ser tampouco eu via algum sinal. Não havia lua. Não havia nada. O sangue de meu corpo se congelou nas veias. Oh, escuridão eterna, o que será de meu ser em tuas entranhas? Quando será que a luz encontrará meus olhos? Eu me encontrava demasiado perdido. Ri. É verdade. Tive a audácia de rir. Uma risada amarga perante o abismo. Diante do terror mortal que eu me encontrava, logo concluí que meu corpo não escaparia da foice afiada da morte.

 

De repente ouvi um eco profundo, agudo, ensurdecedor, do destroçar da madeira desmoronando pesadamente ao chão. Era obra de uma furiosa rajada de vento, e, em consequência, os ecos correspondiam-se de uma ponta a outra na floresta. Virei à esquerda, e segui vacilante pela direção que eu traçara. Mas subitamente esbarrei-me, com o pé, numa enorme árvore que se achava diante de mim. Virei imediatamente para outro rumo, e assim caminhei debilmente até finalmente encontrar um meio de sair incólume daquele horror.

 

Agora ergui meus braços para que eu pudesse me esquivar de qualquer obstáculo que estivesse à minha frente. Felizmente eu caminhei alguns metros sem nenhuma intercepção. Mas o alívio não perdurou. Eis que subitamente eu tropecei num enorme galho de árvore. Fiquei atordoado. A tontura me dominou. Levantei-me lentamente, mas a qualquer momento eu poderia desfalecer. Que sensação terrível a do indivíduo que envereda entre as trevas! Logo comecei a refletir por alguma direção menos sinuosa para que eu pudesse traçar naquela treva fria.

 

Passado um instante, tomei o percurso novamente. Afundei-me em uma direção qualquer, e, de repente, fui tomado por um terrível calafrio. Foi no exato momento que dei um passo para frente com o pé direito, e, logo senti, ao tentar tocar o chão, que este não nivelava com meu passo anterior. Não tive coragem de seguir e, assim sendo, retornei-me de imediato. Alguns instantes depois, eu finalmente cheguei numa área ampla, e logo decidi me agachar para palpar por onde eu pudesse pisar. Andei por alguns metros maquinalmente na calada da noite absurda, quando, subitamente, palpei no chão um objeto singular que me despertou tremenda curiosidade. Ele era arredondado e esburacado. Aquilo me pareceu muito distinto. Quando examinei a posição dos buracos, assombrei-me imediatamente, deduzi que na verdade era um crânio humano.

 

Tornei a andar em linha reta. E, em passos largos, apressei-me enquanto a voz do silêncio era interrompida apenas pelo som de meus passos naquela área plana sobre as folhas secas. Todavia, quando eu pensava que estava livre de qualquer tentação, eis que de súbito cheguei à beira de um desfiladeiro que me amedrontou extremamente. Percebi que todas as circunstâncias ofereciam-me um tremendo desastre, isto é, eu estaria destinado ao carrasco de qualquer maneira. Paralisei-me por alguns instantes. E, sob uma pressão de desespero considerável, eu me pus a pensar o que diabo eu poderia fazer perante aquela situação. Porém uma ilustre ideia alegrou-me de repente. Foi quando cheguei à conclusão que próximo onde eu morava, havia de fato uma colina, que não era tão íngreme pelo o que eu me habituava a observar da sacada do prédio.

 

Movido pelo impulso de minha humilde dedução e um pavor extremo de altura, agachei-me e segurei com bastante firmeza a raiz de uma árvore que se encontrava ao meu lado direito e, com a outra mão, apoiei firmemente no chão, e assim eu segui o percurso lentamente naquela descida. Enquanto eu descia, o meu medo, que era tenso, foi reduzindo-se lentamente. O que deduzi é que a colina não era tão perigosa como eu imaginara que fosse. Apenas os domínios da escuridão que ainda me assolava naquele momento. Então de repente senti que o solo estava nivelado, e, fiquei imóvel. Ergui um braço não tão ereto e tão logo segui nessa posição serenamente. Não me enganei em meus cálculos. Eu estava numa planície. Não havia mais árvores por perto. Até a ventania cessou de modo tão repentino. Senti um novo ar de solo limpo e de terra dura. A minha alegria disparou-se. Eu já estava chegando à minha morada. Era o terreno que eu conhecia em demasia.

 

Senti que havia atravessado os limites do mundo. Ou quem sabe dalgum lugar onde luz alguma jamais havia penetrado. Por fim, adentrei o prédio, subi sua estreita escada, um instante depois, eu abri a porta do cubículo, acendi a lamparina, sentei-me. Eu estava muito exausto. Tirei do bolso meu inseparável relógio dourado. Olhei as horas, porém, infelizmente não me recordo que horas eram. Logo apaguei o pavio da lamparina, instalei-me na cama, cerrei os olhos, e dormi um sono de chumbo.

 

Teria dado mundos para escapar-me daqueles pesadelos e daquela perniciosa influência mortuária. Todo o ar do recinto respirava morte. Eu não era capaz de definir o que exatamente temia ou o que me repugnava. Havia se passado uma semana daquele sinistro episódio. Mas evidentemente tudo estava plenamente claro em minha memória. Minha concentração para a leitura dissipou-se. Minha sensação era de desolação profunda. Passei a beber rum com mais frequência do que de costume. Ele era um alívio para a minha alma. Maus pensamentos assaltavam-me, os mais sombrios e horríveis. Cogitei até arrumar um gato para fazer-me companhia na solidão da noite. Talvez o animal pudesse suprimir meus tormentos com alegria e carícias. Contudo, não levei a cabo tal ideia. Era a época das chuvas e das terríveis tempestades. Em verdade, muito raramente eu tinha vontade ou ânimo para botar o pé fora de meu tugúrio.

 

Uma noite, no auge da tempestade, despertei-me repentinamente de um sonho angustiante. Fiquei imóvel, sentado na cama. Não me recordo do sonho, contudo, um insuportável terror penetrou gradualmente em meu ser. Tentei me convencer de que tais sensações se deviam à influência da tempestade.

 

O espetáculo era fantástico e soturno, até então eu nunca presenciara. E tudo me parecia amedrontador. Chegava aos meus ouvidos os mais sinistros e ameaçadores ruídos da floresta. Uma ventania estranha estava provavelmente concentrada nas imediações próximas, pois aconteciam mudanças bruscas em direção ao prédio. A colisão do vento tremia a janela, e então produzia um som agudo e irritante da madeira. O ar estava muito gelado. O sono me escapou, e as horas passavam lentamente. Levantei-me da cama, caminhei pelo recinto, e logo me sentei na poltrona. Uma angústia sem motivo veio me oprimir. Por que isso me acontecia? Eu não era capaz de responder tal questão. Um relâmpago penetrou pelos buracos da janela e alumiou todo o aposento. Estremeci e fiquei imóvel. Um instante depois soou uma horrível trovoada ensurdecedora que me arrancou de imediato da poltrona.

 

De repente, de uma parte não tão distante do prédio, penetrou aos meus ouvidos um eco estridente e metálico, do rachar da madeira e, depois, desabou pesadamente ao chão. Mal tinha passado o desastre, um relâmpago luziu todo o cubículo, com agressividade e ousadia. Logo me sentei na cadeira, e tapei os ouvidos. Alguns segundos se passaram. Bateu outra trovoada, cujo estrondo ia crescendo à medida que ressoava. Levantei-me no silêncio que se fez a seguir, e, de súbito, algo horrível roçou o meu pé direito, saltei para trás impelido pelo pavor. Acendi a lamparina numa luta quase insucesso. Averiguei pelo chão, os cantos, em torno da poltrona, e encontrei um rato frenético correndo pelo chão e, por fim, o fugitivo escafedeu-se debaixo da cama.

 

Dirigi-me à mesinha e apanhei uma garrafa de gim. Era uma questão de quase obrigação para esquentar-me das lufadas de ar frio que atormentavam o meu corpo, e o sentimento de profundo assombro que me assolava. Sentei-me novamente e recostei-me no espaldar da poltrona. Fiquei ali meditabundo. Mas eu mal tinha me sentado e ouvi um ruído terrível, distinto, que julguei que vinha do terreno em torno do meu prédio. Nesse instante fiquei numa atitude da mais profunda atenção. Reinou um silêncio sepulcral. Não ouvi mais nada. Então eu cheguei à conclusão que tal ruído era fruto de minha imaginação.

 

A ventania continuava uivando furiosamente. Mas vez ou outra oscilava, ora sutil, ora impetuosa. As trovoadas continuavam constantes e, vez ou outra, eram prolongadas, de acordo com a intensidade dos relâmpagos. Súbito, ouvi um eco sufocado, amortecido, espantoso, após uma leve pancada soar bem à porta do prédio. Pus-me de pé num salto, caminhei pelo recinto de uma ponta a outra, porque eu senti que o ruído decerto não se tratava de algo causado pela tempestade, tampouco imaginação minha. Perturbou-me profundamente e, por conseguinte, fiquei completamente nervoso.

 

Dei alguns goles fundos no gim para tranquilizar meu estado de espírito, e o violento terror que me dominava. Ai! Piedade para mim, solitário, infeliz que sou! Eu ouvi com clareza absoluta passos abafados vindos da escada. E pouco tempo depois, ouvi um rugido pavoroso, tão áspero e medonho, que só poderia incutir-me mais medo e horror. Ah! Quem diabo estaria vindo atormentar-me? E então apanhei a garrafa de bebida, dei um gole intenso e soberbo. Os passos aproximavam-se resolutamente. Ouvia tudo perfeitamente, o terror, e o pesado bater de meu humilde coração. A tempestade mantinha toda a força maligna, e, de repente, o relâmpago iluminou o recinto. Uma pausa silenciosa. Retumbou a trovoada, como se o abismo estivesse engolindo o planeta.

 

No mesmo instante o horror que eu aguardava ocorreu. Houve batidas à minha porta. Quase desfaleci e cambaleei até a parede oposta. Meus músculos tremiam. As batidas tornaram-se bruscas. Apanhei a lamparina e, vacilante, fui até a porta. Um relâmpago ameaçador luziu. Consequentemente uma trovoada sinistra por pouco não me derrubou naquele reduto. O ferrolho tremia devido às fortes batidas, e, no mesmo instante, levei a mão direita no ferrolho enquanto a esquerda segurava a lamparina. Abri a porta e de imediato fui assaltado por um horror inexprimível. É realmente impossível que qualquer ser humano pudesse estar preparado com o que eu de fato me deparei. Atrás da porta surgiu então uma criatura amortalhada, pingando sangue de sua asquerosa putrefação, uma figura completamente inumana, exalando um fétido odor deletério, avançou ao meu encontro com um caminhar trêmulo e vacilante, e caiu pesadamente sobre meus ombros e, com uma voz abafada e profunda, por fim, disse: “onde está o meu noivo?”

 

 

 

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