Blog Soturno

Sara

22/01/2018

 

Sobre uma assombração vou contar uma história

De meu trágico amor tão fatal quanto triste,

Que feriu e ficou sangrando na memória

De uma horrível dor que em meu coração persiste...

 

Certa vez, meu angélico e sublime amor,

No auge da loucura, resolveu desistir

De sentir em seu pálido corpo o calor,

Minha loura bela desistiu de existir.

 

Apertando vigorosamente uma faca

Que enterrou-se no fundo de seu ventre frágil.

E para fugir dessa dor que nada aplaca

Fiz seu epitáfio de forma simples e ágil.

 

No epitáfio que escrevi não muito dizia

Além do fato de que ela foi muito linda,

"Sua beleza todas as manhãs renascia

Do mundo dos sonhos de uma nascente infinda".

 

E escrevi, sozinho, esse meu soturno adeus

Na capela onde estava o cadáver de Sara.

Hoje, muitos sabem que os escritos são meus,

Mas a lembrança de seu rosto ficou rara...

 

E ao tentar, em meu desespero, relembrar,

Totalmente louco fui ao túmulo dela.

Movido pelo amor consegui descerrar

O sombrio caixão de minha amada donzela.

 

E ao rever minha adorável e eterna amada

Com seu ventre perfurado e o corpo estragando;

Uma inocente e sensível vida acabada;

Meu amor que o tempo estava desintegrando;

 

Fui consumido por um desejo macabro

Que abraçou meu espírito com tentação:

Sob a fraca luz de um medieval candelabro

Deitei-me ao lado de seu cadáver no chão.

 

Ao provar, tão voraz, do fúnebre pecado

Que no ato de loucura um necrófilo faz,

Estranhamente vi que o meu simples passado

Teve em nosso escasso tempo um gosto fugaz...

 

E ao procurar de qualquer jeito resgatar

Uma alegre e esplendorosa vida perdida,

Irredutível, resolvi não mais pensar

Na razão que nos leva à sensatez da vida.

 

Devolvi minha Sara para sempre amada

Ao seu túmulo frio, quando tive um delírio:

De olhar inquisidor, uma imagem sagrada

Desenvolveu profundamente o meu martírio.

 

E com ódio eu disse: "Se o seu Deus não aceita

Que este valiosíssimo desejo amoroso

Que em sonhos declarados seduz e deleita,

Traga minha doce e amada Sara ao meu gozo,

 

Então sou imperturbavelmente profano,

Como um demônio pecando em subterfúgio.

Pois a Sara que foi para o celeste plano

Eternamente será meu deus de refúgio".

 

E triste, pensei nesse refúgio sem vida

Que em minha despedida ficou para trás.

Deixei a capela em minha triste partida

Em direção aos fúteis caminhos mortais.

 

Mas, talvez, por ter decidido caminhar

Para um fado longe da minha amada morta,

Uma voz trazida na brisa tumular

Rasga a noite, e o sepulcral silêncio ela corta.

 

Era a doce voz de minha eterna donzela,

Minha Sara, do mundo dos mortos, falava.

Foi bom lembrar de como sua voz era bela,

Voz que nessa noite o cemitério encantava.

 

Como um feitiço de melodia me chamava,

Desejando ter ao seu lado este meu ser.

E eu, com dificuldade e sem paz caminhava,

Indo embora para mais em prantos sofrer.

 

Sara não me deixava partir, e sofria

Entre longos gritos de sua plangente dor.

Lembro, com sofrimento, que ela me pedia:

"Por favor, não se vá. Fique comigo, amor".

 

Que horror... sonhador e pungente campo-santo

De uma noite macabra, tão louca e assombrada!

Envolvendo e embalando meu eterno pranto

Pela morta amada, minha Sara adorada.

 

"Por favor, não se vá. Fique comigo, amor".

Ouvir essa frase torturante era atroz.

Comecei a gritar minha dor com furor,

Libertando a loucura de uma voz feroz:

 

-- SARAAA!!!

 

De tanto sofrer pela minha morta amada

Não pude conter meus desesperados prantos.

Ajoelhei-me ao peso de ter Sara velada

Durante anos por imagens de anjos e santos.

 

Sem querer suportar, decidi me matar,

Pôr um fim em meus viventes anos de dor,

Para o espírito de minha Sara encontrar

E recomeçar nosso interrompido amor.

 

Levantei aquela mesma faca insensata

Contra a dor lancinante dentro do meu peito,

Dor esta que, de forma destrutiva, mata

Com seu golpe explosivo e cruelmente perfeito.

 

Numa fome de morrer estranha e voraz,

Com força, fui trazendo a faca ao coração.

De repente uma moça, que surge por trás,

Segurou com muita firmeza minha mão.

 

Essa moça de mão transparente era Sara,

Ela impediu, subitamente, minha morte.

Seu fantasma, inadvertidamente me pára

Rapidamente, como num golpe de sorte.

 

No auge das emoções ela pede implorando

Para que toda essa nossa dor tenha um fim,

E ela também pede, dessa vez ordenando:

"Por favor, meu amor, não se mate por mim".

 

Uma grande e terrível dor que jamais sara

Foi milagrosamente sarada por ela.

Somente minha Sara que entende e repara

Nessa ambígua dor de morte e amor, triste e bela.

 

E eu, sozinho, não posso decidir morrer

Se ela diz em meu espírito que eu não devo,

(Ela pode, para todo o sempre viver

Nestes imortais versos que em saudade escrevo).

 

 

 

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