Blog Soturno

Reflexões de um vampiro

10/04/2018

 

 

O CADÁVER

 

Eu estava sozinho, caminhando à beira da praia, quando me deparei com algo mórbido, e curioso...

 

Na areia, com o sangue já negro e a pele pálida, um cadáver repousava, com as ondas balançando seus braços, e a brisa trazendo seu odor fétido até a calçada onde eu estava.

 

Pensei: "Que merda! Por mais indiferente que eu tente ser, existe sempre um resquício de curiosidade". Por isso, não me contive e fiquei observando aquele corpo funesto, cujo rosto permanecia enterrado na areia, até me cansar e ignorá-lo.

 

Sentei em um banco de pedra ali perto, mais preocupado com minha vida e meus problemas do que com o cadáver.

 

O interessante era que não havia ninguém próximo, já que a praia, localizada em uma área provinciana, estava deserta, como aparentemente sempre esteve...

 

Eu não fumo, mas gosto de levar um vinho comigo nessas caminhadas solitárias e inspiradoras à noite.

 

A cada gole a saudade parecia bater mais forte, um desejo apaixonado pelos carinhos do corpo nu de uma mulher amada, e distante...

 

Além disso, minha embriaguez trazia ilusões... fantasmas ao meu lado faziam-me companhia, e eu passei a noite toda conversando com os mortos.

 

Próximo ao cadáver, vampiros alimentavam-se do que sobrou de seu corpo, que iria apodrecer por completo...

 

* * *

 

O Diabo mente. E ele me disse que eu era aquele cadáver.

 

Tantos fantasmas ao meu redor... Se eu os estava vendo, é porque realmente já estava morto.

 

A noite passou como um raio, e eu acordei com a garrafa de vinho vazia caída no chão.

 

O sol queimava minha pele de forma tão hostil que eu pensei que já estava no Inferno!

 

Olhei para a areia, e o cadáver tinha desaparecido.

 

Quando você começa a pensar na vida e na existência, tudo se torna deprimente. Eu precisava dormir, mas não estava cansado.

 

Eu precisava descansar, mas não estava morto...

 

 


O LUTO

 

Caminhando de volta para meu apartamento, parecia que a cidade tinha sido pintada de preto.

 

Em cada prédio havia um apartamento de luto, escondendo seu segredo para que a cidade não se transformasse em um hospício.

 

E minhas ilusões continuavam, porque o efeito da bebida ainda não tinha passado. Por isso eu vi anjos tristes saindo de cada apartamento sombrio, povoando as ruas com um sentimeno melancólico.

 

Senti a depressão desse ambiente empurrando meu corpo contra o chão, uma vertigem que vinha dos delírios dessas pessoas insanas que viviam com medo de que suas loucuras ganhassem, de uma hora para a outra, a liberdade prometida pela anarquia das revoluções utópicas.

 

Os anjos tentaram o sacrifício no lugar das pessoas que protegiam, mas saíram feridos e frustrados porque fracassaram quando tentaram matar aquela maldita Dor, escrita assim mesmo com D maiúsculo, que ainda vive no coração de cada pessoa infectada pelo mal-estar trazido por essa sombria cor preta, que descolore a alegria do modo de se viver dessas sociedades moralistas e conservadoras.

 

E mais uma vez, tentando ignorar todo esse delírio e visões fantásticas, concentrei-me em meu caminho de volta para o meu lar, passando por cima de anjos feridos e muito sangue.

 

Pulsos cortados, pessoas enforcadas, tiros nas cabeças, estacas nos peitos... Nada adiantou, porque a Dor continuava viva, impregnando todo o ambiente de luto, anjos tristes e marcas que não cicatrizavam...

 

Eu já estava perto, tentando fugir daquelas visões que me causavam enjôo, e vomitando pelo caminho. Até que, para meu alívio, finalmente encontro a porta de meu apartamento e entro. Mas esse apartamento não é algo que posso chamar de lar, essa palavra que engana os solitários.

 

Meu túmulo tem fechadura, banheiro, quarto e sala. E nele não há ninguém esperando por mim, com exceção do rato que sempre aproveitou as sobras do meu jantar sobre o fogão velho e enferrujado.

 

Nunca tive coragem de matá-lo. Esse ser pequeno, frágil e medroso tornou-se minha companhia, meu amigo, meu confidente...

 

Mas nesse dia encontrei o rato morto. Meu pobre amiguinho foi pego pela ratoeira que a empregada deixou na cozinha. Com ódio, matei a empregada. Mas não pensei que esse assassinato fosse me causar um arrependimento e uma dor tão fortes, a ponto de eu me jogar na cama empoeirada e cheia de ácaros como um cadáver, abandonando minha existência, e esperando pela visita da bela mulher que nunca viria... 

 

 


A TEIA

 

Acordei ainda delirando, com estranhas visões ao meu redor. Passei o dia dormindo, e já era meia-noite quando vi uma aranha do tamanho da minha boca no teto, melhorando sua teia para a caçada. Mariposas pareciam homens na armadilha da Morte. O vermelho do sangue das vítimas fazia um contraste enorme com toda essa imagem repleta de imaginações sem cor.

 

Foi estranho, porque acordei vendo tudo em preto-e-branco com escalas de cinza. E só a cor vermelha aparecia como se fosse um aviso, dizendo que certos locais tinham vida e outros não.

 

* * *

 

De frente para o computador, tento afastar as dores no encéfalo com este café forte e bem preto!

Em vão. Essa porcaria ficou tão ruim que arremessei a xícara pela janela.

Na internet, e-mails, comunidades, sites, blogs... Várias pessoas comentando o que escrevo, mas apenas um idiota que afirma ser vampiro veio falar comigo...

Preparei a teia, e ela se espalha com os links de cada vez mais seguidores. Ao menos isso para amenizar minha solidão.

E eu, desesperado, procuro pelo vermelho do sangue em todo esse meio descolorido e sem vida, porque, acreditem, dessa vez o Diabo não mentiu -- estou tão morto quanto as centenas de mortos que se esqueceram de acordar.

Alguém bateu na porta e eu não abri.

Estou perdido, não acredito mais na realidade. E dentro de mim, sinto que algo vermelho se esvai, porque algum monstro conseguiu me caçar.

 

* * *

 

Reflexões que relacionei sobre o ocorrido:

 

Meus olhos doem sempre, todos os dias. Muita exposição à tela do computador. Ficam vermelhos como numa fotografia;

Noites mal dormidas. Dores de cabeça, cansaço e bebida ruim;

Delírios. Vejo fantasmas e vampiros. O homem morto na praia sou eu, o Diabo disse. E o cadáver desapareceu do local...

 

* * *

 

Cansei de refletir sobre toda essa loucura, e enjoado, fui ao banheiro. O que vi no espelho me assustou...

Meus olhos continuam vermelhos como as manchas de sangue da empregada, espalhadas pelos azulejos quando a matei.

 

Estou tentando ficar acordado durante o dia, mas está  impossível conter meu cansaço, além do horror ao sol que veio de forma repentina.

 

Na noite passada acordei com a lua invadindo minha janela quando a abri, e desde então prefiro ficar acordado à noite. Uma vontade avassaladora e inexplicável de sair e explorar a noite está tomando conta de meus impulsos, e isso não é a transformação mais estranha que vem ocorrendo ultimamente...

 

Meu estômago pede por alimento, e dói, numa dor em que ele queima -- é o fogo com ânsia de consumir seu comburente, um desejo ígneo atroz! Mas não consigo me alimentar. Sonho com uma pizza acompanhada de um suco de laranja, mas meu paladar atualmente está rejeitando qualquer coisa que não seja...

 

Abri o jornal e a coluna do horóscopo dizia que meu dia seria ruim. Eu precisava esperar por dias melhores que viriam em breve.

Esperar... Muitas vezes temos a esperança de que algo melhore, basta que para isso tenhamos a paciência de esperar.

"Acredite", ela diz pelo telefone. "In hoc signo vinces", insiste em levantar meu ânimo. E eu percebo que minha procura pelo sentido da vida terminou em indagações sobre a morte.

 

* * *

 

Não sei se foi o tempo, ou algum estranho fenômeno da natureza. Mas minhas viagens sem rumo levaram-me a uma procura incessante por sangue... O motivo? Aquela insistente cor vermelha! A única cor de minha visão descolorida, e sem esperanças...

 

E mais uma vez perco algo que eu julgava indispensável. Meus dentes foram ficando podres, e em pouco tempo todos eles caíram. E dois meses depois aqui estou, novamente, surpreso e assustado diante do espelho. Porque agora não são apenas meus olhos, mas meus novos dentes, com caninos grandes e pontiagudos, terminaram de crescer e já estão manchados pela cor da vida. Aquela empregada foi apenas a minha primeira vítima, porque meu paladar atualmente está rejeitando qualquer coisa que não seja...

 

* * *

 

Ela promete que me acolherá quando eu voltar de minha viagem, minha doce amada que, de longe, foi a única que ouviu os berros do meu coração, a ponto de ser marcada por eles.

 

Hoje estou tão cansado e fraco, tão sem energia, tão sem vida, que a esperança se renova quando penso em sua promessa. Por isso, não haverá mais arrependimentos que me impossibilitem, deixando-me nessa fome absurda. O que haverá, sim, é o fato de que terei que me conformar para seguir adiante, porque meu paladar atualmente está rejeitando qualquer coisa que não seja...

 

* * *

 

Sua voz do outro lado da linha desperta meu desejo. Nossas imaginações ficam vermelhas e tudo começa a ganhar vida, desde minhas esperanças até nossos sonhos mais devassos.

Já não posso mais acreditar no que o horóscopo diz, estou morto e suas leis não se aplicam mais a mim. Por isso estou voltando, para fazer meu próprio caminho ao seu lado.

 

Renasci com fome, com um desejo diferente. Agora que iremos nos reencontrar, ela vai encarar meu olhar rubro (esse olhar assustador e admirável que vejo no espelho) e ver o que ele diz: Quero possuí-la, saborear seu corpo cheio de delícias em uma noite perfeita onde os astros irão se alinhar a nosso favor, porque meu paladar atualmente está rejeitando qualquer coisa que não seja...

 

... SANGUE!

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Postagens Relacionadas:
Please reload

  • WhatsApp Soturnos
  • Twitter Soturnos
  • Youtube Soturnos
  • Instagram Soturnos
Logotipo Soturna Sintonia Preto.png